Carta de despedida

Quando de sua ida a São Gabriel da Cachoeira, Pedro nos agraciou com a seguinte carta:

Queridos familiares, amigos e amigas

Em primeiro lugar, quero dedicar essa missa a minha madrinha Glaucia, que nos deixou há uma semana. Tenho um sentimento de que ela vai olhar por nós e alegrar um pouco mais o céu. As maiores lembranças que tenho dela são o seu sorriso e sua luta pela causa ambiental. De alguma forma, sinto que posso dar seguimento ao que ela tanto ensinava como geografa e professora. Essa missa é em memoria dela.

Quero agradecer a cada um de vocês pela presença nesta noite, isso representa muito pra mim e me dá muita força para seguir a caminhada. Celebramos hoje, na Igreja da Boa Morte, a vida, a esperança de dias melhores.

Sei que não estamos reunidos esta noite por mim apenas: todos os que estão aqui querem um mundo melhor para si; para seus filhos. Todos queremos paz, alegrias, amizade, justiça. Este encontro serve para renovarmos nossos sonhos.

Agradeço de forma especial as pessoas que prepararam com tanto carinho essa missa: a Marcelo da Pastoral da Juventude, a Pe Valdir e dona Vera, a toda a comunidade alianca da Misericordia, nas pessoas de Pe Enrico e Antonelo, ao pessoal da banda e a todos e todas que permitiram que esta noite acontecesse. Pe Valdir, aliás, que foi o pai desta minha ideia de ir pra Amazânia. Desde fazer contato com o bispo de São Gabriel da Cachoeira, até falar com todos os padres e irmãs para que autorizassem meu envio. Muito obrigado por toda a ajuda, Pe Valdir.

Quero saudar meus amigos da alianca da misericórdia. Por ceder essa igreja, que é vossa casa.

Saibam que vocês têm enorme influência na minha vida e nessa minha decisão: desde o primeiro momento, quando conheci um montão de jovens que moravam na favela do moinho e faziam pastoral carcerária, logo fiquei encantado com o que vi.

Eram jovens dedicando suas vidas a melhorar a realidade dos mais marginalizados: os moradores de favelas e os encarcerados.

Nas muitas vezes que estive com eles, sempre me identifiquei com aquela vocação e sentia alguma coisa arder mais forte no meu peito. Sabia que faria algo parecido.

Vocês vivem a solidariedade na essência na palavra, vivem pela causa social com compromisso e verdade.

Parabéns e muito obrigado pelo exemplo.

Quero abraçar todos meus familiares. Meus tios e tias, pais e mães pra mim, e meus irmãos. Meus primos e primas, que são meus outros irmãos e irmãs. Carrego voces no coração, assim como carrego a lembrança de meus quatro avós, os quais tive a enorme felicidade de conhecer e conviver. Sinto que eles estão comigo. Sempre os senti por perto e sei que eles nos protegem. Dedico também a eles minhas alegrias.

Brindo com todos meus amigos e amigas, da rua, de colégio, de faculdade, das lutas, da vida. Pela amizade e companheirismo. Obrigado por me ensinar. Espero que nossa amizade possa ser preservada e se fortalecer ainda mais, nos sentimentos de solidariedade com os outros, no amor pelo país, na luta por mais igualdade social, autonomia e liberdade das pessoas e tolerência com as diferenças. Tamo junto!

Aos amigos dos meus pais, que se tornaram meus amigos. Obrigado por todo exemplo de luta e dedicação a uma militância que exigiu muito tempo do lazer e conforto de vocês e de suas famílias. Carrego vocês comigo também! Muito obrigado pela presença.

Agradeço o carinho dos amigos de Carlos de Foucalt. Obrigado pela amizade e acolhida. Terei mais oportunidade de conhecer os ensinamentos de Foucalt. De alguma forma, já me sinto muito influenciado por essa espiritualidade, desde minha infância, através de meus pais, e agora, por todo esse processo da minha decisão, quando estive rodeado por vocês. Muito obrigado.

Quero agradecer, de forma muito especial aos meus queridos amigos e amigas companheiros de Pastoral Carcerária. Obrigado pela oportunidade que me deram, por confiarem e apostarem em mim. Pela amizade e paciência que tiveram comigo. E, sobretudo, pelo exemplo de fé e compromisso com a causa carcerária e humana. Vocês são verdadeiros guerreiros, pessoas iluminadas. Faltam palavras pra descrever tudo o que vivi nestes 3 anos de Pastoral. Quero, do fundo do coração, agradecer a oportunidade de ter compartilhado com vocês momentos dos quais nunca esquecerei. A presença missionária dentro da Pastoral influenciou a minha escolha. Carrego vocês, os presos e as presas, comigo. Que tenhamos dias melhores, em que nossa sociedade respeite os direitos dos cidadãos presos. Muito obrigado!

Aos meus queridos pais, também faltam palavras. Obrigado pelo exemplo, por nos ensinar a olhar pelo outro, a ter consciência do mundo em que vivemos, a lutar por nossos sonhos. Muito obrigado por serem parceiros comigo e com meus irmãos em nossas investidas, em nossos projetos.

Amo muito você, pai e você, mãe.

Aos meus queridos irmãos, todo meu amor e amizade. Vocês são pessoas especiais pra mim, trazem mais energia pra minha vida, são minha sustentação.

Espero estar tão perto de todos vocês mesmo estando longe. Carrego vocês nesta luta. Desde já peço perdão pelas vezes que precisarem de mim e que estarei ausente. Obrigado pelo apoio.

Essa minha decisão de viver essa experiência na Amazônia é fruto do convívio com a realidade dos cárceres e a realidade social em sua forma mais cruel, o lado B de nosso País: o País dos esquecidos, dos humilhados. Pude estar em contato com a miséria da miséria, a injustiça, a segregação social e racial, a dor, o esquecimento. Ter visto de perto situações desconhecidas pela maioria das pessoas, ter conhecido um País que ainda maltrata seus cidadãos, tudo isso me despertou pra necessidade de luta, de trabalho para a profunda transformação dessa realidade.

De forma geral, vejo os poderes de Estado ainda muito elististas. Não conhecem de verdade a realidade de seu povo, a pobreza, a falta de dignidade e cidadania que sofrem milhões de cidadãos, não conhecem os cárceres. Mantêm-se distantes daquilo que deveria ser a essência de seu trabalho: o bem comum do povo, sobretudo daquele que mais necessita das instituições para a garantia de seus direitos. Privilegiam o status, o poder, as facilidades materiais em detrimento dos direitos fundamentais das pessoas.

As leis, a Constituição Federal infelizmente não são as mesmas para todos. A justiça é justa para poucos. Os direitos de alguns são mais importantes que de outros. Lutar pela terra é crime. Mas não é crime a situação daquela pessoa que vive em condicoes sub-humanas nas favelas, sem dignidade nenhuma, sem comida. Furtar é crime. Mas não é crime quando o Estado amontoa milhares de presos e presas numa lata, os tortura impunemente, e viola todos seus direitos previstos nas leis. Temos dois Países: o País dos privilegiados, dos que têm acesso à riqueza, à cultura, ao lazer, aos bens materiais, às melhores oportunidades e o País dos esquecidos, que não têm direitos, não têm oportunidades, e ainda são criminalizados.

Devemos mudar, acredito que estamos avançando, mas é preciso muito mais, não podemos permitir retrocessos nas conquistas dos direitos.

Precisamos acabar com a segregação racial. Vejamos os direitos dos índios, como têm dificuldade para ser implementados. Vejamos a diferença entre os salários de negros e brancos. Vejamos os preconceitos que os nordestinos ainda sofrem no sul. A discriminação que sofrem as mulheres. Isso tudo ainda existe, é verdade, tristemente sentido no cotidiano.

Somos um País extremamente desigual na distribuição de renda. Somos top 10 no ranking de desigualdade. Num país com 200 milhões de habitantes, os 10% mais ricos detêm 50% da riqueza. Os 10% mais pobres, apenas 1% dessa riqueza. Os moradores de favelas pagam proporcionalmente mais impostos que os ricos.

4 milhões de famílias no Brasil precisam bos benefícios de uma reforma agrária. Sem contar outros milhões que vivem em condicoes sub-humanas e que precisam de mudanças.

Nosso mundo tem 1 bilhão de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza, com menos de 2 dólares por dia. No Brasil, são 7,5 milhões de pessoas que vivem na linha da pobreza.

Para mudar essa realidade, precisamos democratizar cada dia mais o poder econômico e o poder político. Não permitir que o capital econômico mande nas políticas dos países, em detrimento das conquistas e avanços sociais.

Não dá para ficarmos tranquilos diante de tanta injustiça. Porque preferimos a anestesia à luta? Porque não deixemos de lado um pouco nosso conforto para pensarmos e agirmos por uma sociedade melhor?

Viajo para a Amazônia para colaborar, como cidadão e advogado, com as comunidades ribeirinhas, os índios, a questão ambiental. A discussão que está em voga hoje é a ambiental e, realmente, ela se faz necessária e urgente.

A natureza cada vez mostra com mais forças seu poder e sua revolta contra o que fazemos com ela. Utilizamo-la com interesse econômico e sem preocupação com os demais seres que nela vivem. Não nos preocupamos com o amanhã. E ela não está feliz com isso. Lembremos dos tsunamis, dos furacões, dos terremotos, dos deslizamentos.

Olhemos para nossa cidade de São Paulo, nesse mês de janeiro, o tanto que choveu. Os estragos das chuvas nos lugares mais precários. Infelizmente os efeitos climáticos atingem de forma pior os mais pobres, os que moram em áreas de risco, nas beiras dos rios.

Insistimos em desmatar nossas florestas. Somos o 5º pais no mundo que emite mais gases poluentes e 75% desses gases vêm do desmatamento. Matamos nossa floresta para alimentar o mercado externo, americano e europeu. Faz sentido isso?

Do que adianta exercitarmos uma consciência ecológica se não questionamos nosso próprio anseio consumista que desgasta a capacidade da natureza e acelera a degradação do meio ambiente? Devemos exigir de nos sacrifícios pelo bem da sobrevivência da natureza e nossa também.

Apenas para exemplificar, com situações cotidianas: será que precisamos ter 50 pares de sapatos em nossos armários? Dezenas de peças de roupas que depois ficam armazenadas? Será que todos precisamos de carro em detrimento do transporte público? Precisamos tomar duas vezes ao dia banhos de 30 minutos? Devemos pensar que nosso padrão de consumo gera desigualdades e agride a natureza, e é preciso abdicar desse modelo.

Sinto nessa minha escolha um pouco de negação, ainda que temporária, do modelo civilizatório ocidental consumista e destrutivo em que vivemos – e, pior, que achamos bom. Desejo buscar na natureza, com os índios, valores humanos que se sobreponham às ilusões da civilização.

Penso que, diante de toda a realidade miserável que pude ver, não posso ficar inerte, tocando minha vida como se a vida do outro nada tivesse a ver com a minha. Me sinto na obrigação de colaborar com nosso povo.

Não é preciso ir até a Amazônia para mudar essa realidade social brasileira. A cidade de SP está cheia de problemas a serem resolvidos, e todos vocês podem colaborar para mudar essa situação. Visitem a favela do moinho, o jardim pantanal, uma unidade prisional. Certamente lá existem muitos problemas e as pessoas precisam de ajuda!

Mas, nem só de lutas vive o homem. Quero viver, escrever uma gostosa poesia de minha vida. Poder respirar um ar puro, contemplar a mata e os animais, estar em contato com culturas diferentes, jogar mais futebol, estar no paraíso natural. Como diz a poesia do sambista Candeia, cantada na voz de Cartola: “deixe-me ir, preciso andar, vou por ai a procurar, sorrir pra nao chorar. Quero assistir ao sol nascer, ver as águas do rio correr, ouvir os pássaros cantar, eu quero nascer, quero viver”.

Para terminar, dois lindos poemas do nosso querido dom Pedro Casaldaliga, grande figura que me inspirou profundamente e a quem tive a enorme felicidade e privilégio de conhecer em São Felix do Araguaia:

Pobreza Evangélica

Não ter nada.
não carregar nada.
não poder nada.
e, de passagem, não matar nada;
não calar nada.
Somente o Evangelho, como uma faca afilada,
e o pranto e o riso no olhar,
e a mão estendida e apertada,
e a vida, a cavalo, dai.
E este sol e estes rios e esta terra comprada,
para testemunhas da revolução ja estourada.
E mais nada.

Epilogo Aberto

Atenho-me ao dito:

A justiça,
apesar da lei e do costume,
apesar do dinheiro e da esmola.

A humildade,
para ser eu mesmo, verdadeiro.

A liberdade
para ser homem.
E a pobreza
para ser livre.
A fé, cristã,
para andar de noite,
e, acima de tudo, para andar de dia.

E, seja como for, irmaos,
eu me atenho ao dito:
a Esperança.

Deixo aqui um convite para que todos venham visitar a Amazônia. Para quem quiser conhecer o paraíso. Não se arrependerão. As portas lá sempre estarão abertas a vocês. Espero vocês numa visita.

Muito obrigado por virem, quero dar um abraço em cada um de vocês!

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Homenagem da diocese de São Gabriel da Cachoeira a Pedro Yamaguchi Ferreira

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Missa de 1 ano da despedida de Pedro Yamaguchi Ferreira

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Missa de 1 ano da despedida de Pedro Yamaguchi Ferreira

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Pedro é homenageado pela OAB – SP

Nesta segunda feira (09/04/2012), foi realizada a cerimônia de nominação da sala da Comissão de Direitos Humanos da OAB – SP em homenagem a Pedro Yamaguchi Ferreira.

Abaixo, o discurso escrito por Anderson Lopes, amigo de Pedro.

Quero dizer que é uma grande honra e, ao mesmo tempo, uma enorme responsabilidade, falar em nome dos amigos de faculdade do Pedro.

É gratificante representar tantos indivíduos que fizeram parte da história do nosso querido amigo, mas também é uma tarefa árdua, pois a relação que cada um de nós teve com ele jamais poderá ser resumida num breve discurso, que sempre carregará a singularidade do sentimento de cada um pelo Pedro.

Sendo assim, e considerando a brevidade do tempo, eu gostaria de ressaltar apenas um aspecto muito forte na personalidade marcante do nosso amigo.

Sinceramente, peso que a presente homenagem não pode se encerrar na nominação de uma sala.

Esse gesto deve ser apenas uma faísca no coração de cada indivíduo aqui presente e na curiosidade daqueles que um dia olharem a placa e tentarem descobrir no Google qual foi a obra do Pedro.

Eu digo isso porque, longe de buscar a glória efêmera desse mundo, longe de travar lutas almejando autopromoção, o Pedro deixou marcado em seus passos o descontentamento com o estado das coisas e com o conformismo da nossa sociedade diante da barbárie diária cometida contra os oprimidos.

E quando digo oprimidos, falo numa dimensão bem elástica da palavra, falo dos excluídos pela miséria econômica, pelas grades do cárcere, pela exploração do homem branco sobre os verdadeiros donos das florestas, entre tantos outros.
Em outras palavras, o Pedro enxergava nesses grupos tão carentes de efetivos representantes no palco da democracia a pedra bruta a ser lapidada pelo seu coração solidário.

E tanto em seu discurso de despedida quanto em suas ações diárias, ele nos alertou sobre o perigo dessa conformação social frente a tantas mazelas sociais que, com pequenos gestos individuais, podem ser profundamente alteradas para melhor.

A breve, porém pulsante, existência do Pedro será sempre um alerta para todos nós, um chamado, um choque para abrirmos os olhos, para lembrar que o muito pode ser feito com tão pouco.

As grandes mudanças o mundo dependem mais da nossa boa vontade do que do humor dos nossos representantes políticos.

O Pedro plantou no coração dos seus amigos a semente da provocação, para não cerrarmos os olhos, para não alimentarmos a indiferença, e sim para abrirmos nossas portas e janelas e estender a mão a necessitado que nos ronda.

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Ao Negro Pedro

Por Júlia Yamaguchi Ferreira

Aguardente que te embriagou em boa hora
Água ardente que te fez ir embora
O Negro sufocado agora sufoca
Tirando um samba do choro da asma
E o oprimido agora chora

O choro ácido, como o sal dos seus cabelos
cura as feridas nas mãos, da alma que vai embora

água que em rugas de sabedoria te escora
Embora 127 anos, não seja aqui boa hora.

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Amor de índio

Pessoal,
Essa música o Pedro dizia que iria colocar no casamento dele na igreja…
Beijos,
Alice

Amor de Índio

Beto Guedes



Tudo que move é sagrado
E remove as montanhas
Com todo o cuidado
Meu amor
Enquanto a chama arder
Todo dia te ver passar
Tudo viver a teu lado
Com arco da promessa
Do azul pintado
Pra durar
Abelha fazendo o mel
Vale o tempo que não voou
A estrela caiu do céu
O pedido que se pensou
O destino que se cumpriu
De sentir seu calor
E ser todo
Todo dia é de viver
Para ser o que for
E ser tudo
Sim, todo amor é sagrado
E o fruto do trabalho
É mais que sagrado
Meu amor
A massa que faz o pão
Vale a luz do teu suor
Lembra que o sono é sagrado
E alimenta de horizontes
O tempo acordado de viver
No inverno te proteger
No verão sair pra pescar
No outono te conhecer
Primavera poder gostar
No estio me derreter
Pra na chuva dançar e andar junto
O destino que se cumpriu
De sentir seu calor e ser tudo
Sim, todo amor é sagrado

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Procura-se

Por Manoela Ferreira

O que encaixa perfeitamente e tapa o vazio
Não tem cor, não tem forma, não tem nome
Procura-se algo grande, mas tão imensamente grande que não caiba na gigantitude de si
Algo intenso e forte
E com a delicadeza necessária para que mesmo forte, seja sutil
[Tudo o que move é sagrado
E remove as montanhas
Com todo cuidado]

Procura-se o eterno, o que transcende
pois meus sentimentos e sonhos já não cabem mais em mim
Procura-se um coração gigante
porque o meu é pequeno e apertado
Um coração que finalmente entenda e seja o próprio amor
[Sim, todo amor é sagrado]

Procura-se íntima integração com a natureza
Procura-se entender a voracidade de um rio
o significado de um penacho, de uma solitária, dum pandeiro, de uma camisa à beira d´água
procura-se pelo que o outro já procurou
[O pedido que se pensou]
procura-se pelo que a correnteza levou
[O destino que se cumpriu]

Procura-se a felicidade das memórias de infância
[Pra na chuva dançar e andar junto]
Procura-se a felicidade pela integridade da presença de cada unidade da família
no almoço, nas viagens
e o tempo perdido na desarmonia do natal
[Abelha fazendo mel
Vale o tempo que não voou]

Procura-se a agressividade contida, a indignação que agoniza
Procuram-se antídotos para feridas que estouram na pele devido à dor no coração
Procura-se pelo que, de tão incontido em si, voou
[E alimenta de horizontes
O tempo acordado de viver]

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A viagem de Chihiro

Pedro,

Esteja aonde estiver, fique em paz.
Te amo, mesmo na sua ausência física.
Tenho muito orgulho de ter sido sua mãe.
Sou feliz, e por tua memória, serei sempre alegre, do jeito que você gostava.
Até um dia,
Alice

“Em algum lugar, uma voz chama
do fundo do meu coração
que eu possa sempre sonhar,
os sonhos que movem meu coração
Tantas lágrimas de tristeza,
incontáveis lágrimas rolaram
Eu sei que do outro lado,
eu encontrarei você
Toda vez que nós caímos no chão,
nós olhamos para o céu azul lá no alto
Nós acordamos para a sua imensidão azul,
como se fosse a primeira vez
Como o caminho é longo e solitário
e não enxergamos o fim
Posso abraçar a luz
com meus dois braços,
Quando digo adeus, meu coração pára,
com ternura eu sinto
Meu corpo vazio e silencioso
passa a ouvir o que é real
O milagre da vida,
O milagre da morte
O vento, a cidade, as flores,
todos nós dançamos em união

Em algum lugar, uma voz chama,
do fundo do meu coração
Continue sonhando seus sonhos,
nunca deixe eles partirem

Por que falar das suas tristezas
ou sobre as angústias da vida?
Deixe teus lábios cantarem
uma linda canção para você
Não esqueceremos a voz sussurrante
em cada lembrança ela ficará sempre
para guiar você
Quando um espelho se quebra,
estilhaços se espalham pelo chão
lampejos de uma vida nova,
refletem-se por toda parte
Janela de um recomeço,
silêncio, nova luz da aurora
Deixe que meu corpo silencioso e vazio
seja preenchido e nasça outra vez,
Não precisa procurar lá fora,
nem navegar através dos mares
Porque brilha aqui dentro de mim,
está bem aqui dentro de mim
Encontrei uma luz, está sempre comigo”

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Homenagem de Rodrigo Junqueira

Queridos Paulo e Alice,

Essas palavras representam uma homenagem à memória do Pedro e o cumprimento do meu dever pessoal de registrar o reconhecimento e o agradecimento a vocês da família, por terem nos presenteado com a companhia dele. Infelizmente, eu só pude conviver com esse presente durante 8 anos, porque conheci o Pedro no início da faculdade. Embora não haja tido a alegria de compartilhar com ele momentos de outras épocas, esses oito anos de amizade verdadeira e saudosa me deixam na memória lembranças de um ser humano único.

Aliás, segundo o dicionário Michaelis, único representa aquele ou aquilo “Que é um só; que não tem igual em sua espécie ou gênero; exclusivo, singular. 2 Excepcional, principal, essencial. 3 Sem par, sem igual”. Ou, como alguns amigos o chamavam carinhosamente,“4 Ridículo, esquisito, excêntrico, extravagante.” E, por fim, aquele que é “5 Superior aos demais; o melhor; a que nada se compara. 6 Sem precedentes”.

Não faço referência aqui a um “ser humano pretensiosamente superior” – perfil, aliás, repudiado pelo Pedro e muito longe de sua personalidade. Mas estou falando de sua capacidade superior e incomparável de acolher o próximo; da sinceridade e autenticidade únicas naquele abraço (ao mesmo tempo, bruto e sensível); daquela risada transparente e compreensiva.
Tive a oportunidade de presenciar uma cena do Pedro durante viagem a Águas da Prata, em que eu senti toda essa verdade e simplicidade nas atitudes sinceras do meu amigo. Ao ver a situação de um modesto grupo local de senhores amigos, compartilhando e saboreando a amizade numa simples e autêntica roda de samba, ele não se agüentou, entrou na roda e, como sempre, foi muito bem recebido, como “alguém de casa”, pelos então desconhecidos. Depois de dividir aquele momento, ser acolhido e sentir a simplicidade e generosidade daquela roda de amigos, Pedro começou a chorar compulsivamente, como forma de expressar que ali estava o modelo de vida que queria para si: amor, solidariedade, compreensão e acolhimento do próximo. Apenas grandes seres humanos conseguem praticar e compartilhar essas virtudes com o próximo e, sobretudo, por meio de um modo de vida simples.

E foi isso que nosso irmão foi buscar em São Gabriel da Cachoeira. Viver na simplicidade, mas podendo dividir sua generosidade com aqueles outros abençoados por sua companhia, presença e apoio..

Essa atuação sócio-política do Pedrão era uma das poucas manifestações de defesa de parcelas da sociedade e combate a uma política desvirtuada que me permitem acreditar e sonhar com a letra de Chico Buarque de Holanda, quando diz:

“Amanhã há de ser outro dia, Eu pergunto a você onde vai se esconder Da enorme euforia? Como vai proibir Quando o galo insistir em cantar? Água nova brotando E a gente se amando sem parar . (…) Apesar de você Amanhã há de ser outro dia. Ainda pago pra ver O jardim florescer Qual você não queria Você vai se amargar Vendo o dia raiar Sem lhe pedir licença E eu vou morrer de rir E esse dia há de vir antes do que você pensa Apesar de você Amanhã há de ser outro dia Você vai ter que ver A manhã renascer E esbanjar poesia Como vai se explicar Vendo o céu clarear, de repente, Impunemente? Como vai abafar Nosso coro a cantar, Na sua frente.”

A figura do meu amigo Pedro sempre representou para mim essa “água nova brotando” e esse “jardim florescer”, de maneira que sua presença me dava a sensação de que realmente “amanhã há de ser outro dia”. Sua vida caminhava para formar esse coro difícil de ser abafado e nos estimulava para seguir em busca desses valores de justiça tão defendidos e buscados por ele.

Infelizmente, nós perdemos, fisicamente, a grande companhia do Pedro. Isso dói como uma pontada no peito, quando lembramos disso tudo e pensamos que ele não estará mais do nosso lado corporalmente. Mas fica na memória a passagem de alguém que deixou histórias e marcou o grupo de amigos por ser esse humano único.

Paulo e Alice, muito obrigado por terem nos dado esse presente raro e único. Mas saibam que ele foi, é e será muito valorizado.

Um grande abraço após esse ano de despedida do Pedrão.

Do amigo,

Rodrigo Junqueira
São Paulo, 3 de junho de 2011

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Homenagem de uma missionária novata, para um mestre missionário.

UM MÊS DEPOIS QUE O Yves e eu cá chegamos para trabalhar com nosso amigo Don Edson Damian em São Gabriel da Cachoeira, chega um jovem missionário chamado Pedro.

Acabando de chegar, em seu primeiro almoço na Diocese, tivemos a honra de estar juntos. Ele estava lindo!!!! Irradiava imenso orgulho por começar a sua missão ao Lado de Dom Edson, que o aceitara no rebanho.

Um largo sorriso, de dentes muito brancos, olhar sincero e profundo, atitudes extremamente educadas, traduziam a sua grande humildade e franqueza… Esse era o Pedro, pelo qual o meu marido e eu nos apaixonamos. Foi Amor à primeira vista!!! Nesse primeiro dia de contato, surgia em nós uma imediata vontade de o proteger, aconselhar, ajudar e principalmente lhe dar o amor igual ao que dedicamos aos nossos 3 filhos. Seus questionamentos, suas dúvidas, sua nítida vontade de ajudar, e principalmente sua boa energia tinha nos conquistado. Naquele momento, ele já era nosso, e por mim foi chamado de Pedrinho.

Faz um ano que acordo com o barulho do Rio e a sua imagem vem à minha mente com aperto no coração.

Este jovem missionário nos ensinou bem mais que nós o ensinamos e nos deu em dobro o que lhe demos.

O exemplo de compaixão e amor para com os donos da nação, o povo indígena que tanto considerava, havia se tornado o centro da sua vida.

Querido Pedrinho, ao terminar esta homenagem, quero dizer que você e eu temos dois segredos em comum:

O primeiro é que ambos tínhamos muita vontade de ser indígenas.

O segundo é que nós dois amamos da mesma forma Deus e Tupãna…

… e você, com certeza, pelo caminho do Rio Negro, já os conseguiu alcançar.

Um grande beijo, meu filho, amigo e índio.

Minnie

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