Homilia da missa de 1 mês de falecimento

Confira abaixo a homilia feita por Dom Pedro Luiz Stringhini na missa de um mês de falecimento de Pedro Yamaguchi Ferreira. A celebração ocorreu ontem (30), na Catedral da Sé, em São Paulo:

MISSA DO PRIMEIRO MÊS DE FALECIMENTO DO
MISSIONÁRIO PEDRO YAMAGUCHI
Catedral da Sé – São Paulo – 30.06.2010

Para meditar sobre a vida do nosso querido jovem missionário Pedro, recorro-me à mensagem de quatro ‘Pedros’: o Apóstolo Pedro, D. Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra (esses dois inspiraram a Paulo Teixeira e Alice darem o nome ao menino) e, sobretudo, ele mesmo, Pedro Yamaguchi, além de João evangelista. Lendo a mensagem de sua despedida e um relato de suas experiências em S. Gabriel da Cachoeira – AM, junto aos índios, aos presos, à pastoral da juventude, Conselho de Direitos Humanos, fiquei impressionado com a clareza e lucidez do Pedro. Ele sabia o que estava dizendo e o que estava fazendo. De fato, a missão em nome da Igreja, só pode ser realizada sob a inspiração do Espírito Santo.

Na carta do apóstolo Pedro (1Pd 1,3-7), está escrito: “Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo … Ele nos fez nascer de novo para uma esperança viva, para uma herança que não se desfaz, não se estraga nem murcha … Isso é motivo de alegria para vós, embora seja necessário que no momento estejais por algum tempo aflitos, por causa de várias provações”.

Nosso jovem missionário Pedro deu testemunho dessa esperança viva; deixou-nos uma herança que não se desfaz nem murcha. Outros jovens podem beber de seu ideal, pelo qual deixou tudo e partiu rumo à Amazônia. Seu gesto generoso custou a doação da própria vida. Grande é o sofrimento de seus pais, seus irmãos e familiares e de todos nós, seus amigos, que tanto o admiramos …

No quarto Evangelho (Jo 17,11b-19), João evangelista narra a oração sacerdotal de Jesus: “Pai santo, guarda-os em teu nome, o nome que me deste, para que eles sejam um, como nós somos um … (v. 11b) … para que (eles) tenham em si a minha alegria em plenitude (v. 13) … Eles não são do mundo (v. 16). Consagra-os pela verdade: a tua palavra é verdade (v. 17) …”.

Somos um só corpo (o corpo de Cristo), vivemos em comunhão; quando um membro sofre todos sofrem. Anunciamos uma mensagem que o mundo nem sempre compreende; falamos de valores que são humanos e divinos e não materiais; carregamos no coração a utopia de um mundo diferente, justo, solidário.

O jovem missionário Pedro falou forte de tudo isso, transmitiu uma alegria verdadeira e real, de quem encontra o verdadeiro tesouro, questionando os critérios do mundo consumista e individualista; e o fez com sua palavra decidida e sua escolha decisiva, sua profecia ao acreditar num mundo fraterno, onde o pobre é incluído e a verdade realmente liberta …

Pedro Tierra, com tristeza, diante da morte de Pedro, afirma: “ouço a notícia e recolho o impulso do seu relato, há poucos meses, quando ele escolheu ir para a Amazônia. Percebi naquele instante sua alegria. A orgulhosa alegria de quem se prolonga na geração seguinte. Uma geração que se lança à vida, alimentada pela raiz das mesmas crenças que nutriram as (nossas) lutas … E me sinto, num relâmpago, golpeado pela perda de uma pessoa com quem nunca convivi. E que, no entanto, amei … Como se ama alguém que se entrega em qualquer lugar do mundo para torná-lo melhor, mais humano”.

De Dom Pedro Casaldáliga, homem de esperança: “Na dor cresce também a comunhão e a esperança … O Pedro querido carregava o meu nome e os meus sonhos. Agora, chegou ele à plena realização. A última grande decisão da sua vida acaba sendo uma espécie de sacramento de compromisso e de partilha. Seguiremos ainda mais unidos. As muitas águas, como diria o Cântico dos Cânticos, não conseguiram afogar a procura generosa do Pedro. Ele virou um símbolo fraterno, pascal”.

Pedro Yamaguchi – aos familiares, amigos e amigas, na missa de despedida, na Igreja da Boa Morte, fala aos amigos de sua UTOPIA:

“Celebramos hoje, a vida, a esperança de dias melhores. Sei que não estamos reunidos esta noite por mim apenas: todos os que estão aqui querem um mundo melhor para si; para seus filhos. Todos queremos paz, alegrias, amizade, justiça. Este encontro serve para renovarmos nossos sonhos”.

Recorda sua MADRINHA GLÁUCIA (Tenho um sentimento de que ela vai olhar por nós e alegrar um pouco mais o céu), seus FAMILIARES, AMIGOS OS MAIS PRÓXIMOS: Marcelo da Pastoral da Juventude, Pe. Valdir Dona Vera, a comunidade Aliança da Misericórdia, nas pessoas de Pe. Enrico e Pe. Antonelo, ao pessoal da banda … afirmando:

“Pe Valdir, aliás, que foi o pai desta minha ideia de ir para São Gabriel da Cachoeira … Muito obrigado por toda a ajuda, Pe Valdir … Vocês (da Aliança da Misericórdia) têm enorme influência na minha vida e nessa minha decisão: desde o primeiro momento, quando conheci um montão de jovens que moravam na Favela do Moinho e faziam pastoral carcerária, logo fiquei encantado com o que vi. Eram jovens dedicando suas vidas a melhorar a realidade dos mais marginalizados: os moradores de favelas e os encarcerados. Nas muitas vezes que estive com eles, sempre me identifiquei com aquela vocação e sentia alguma coisa arder mais forte no meu peito. Sabia que faria algo parecido”.

Quero abraçar todos meus familiares … tios e tias, pai, mãe, irmãos, primos e primas, meus amigos e amigas, da rua, de colégio, de faculdade, das lutas, da vida. Aos amigos dos meus pais, que se tornaram meus amigos. Obrigado por todo exemplo de luta e dedicação a uma militância que exigiu muito tempo do lazer e conforto de vocês e de suas famílias … Agradeço o carinho dos amigos de Carlos de Foucalt. Obrigado pela amizade e acolhida.

Aos companheiros de Pastoral Carcerária:

“Obrigado pela oportunidade que me deram, por confiarem e apostarem em mim. Pela amizade e paciência que tiveram comigo. A presença missionária dentro da Pastoral influenciou a minha escolha. Carrego vocês, os presos e as presas, comigo. Que tenhamos dias melhores, em que nossa sociedade respeite os direitos dos cidadãos presos”.

Aos PAIS E IRMÃOS:

“Aos meus queridos pais, também faltam palavras. Obrigado pelo exemplo, por nos ensinar a olhar pelo outro, a ter consciência do mundo em que vivemos, a lutar por nossos sonhos. Muito obrigado por serem parceiros comigo e com meus irmãos em nossas investidas, em nossos projetos. Amo muito você, pai e você, mãe. Aos meus queridos irmãos, todo meu amor e amizade. Vocês são pessoas especiais pra mim, trazem mais energia pra minha vida, são minha sustentação. Espero estar tão perto de todos vocês mesmo estando longe. Carrego vocês nesta luta. Desde já peço perdão pelas vezes que precisarem de mim e que estarei ausente. Obrigado pelo apoio.

MENINO E PROFETA – A CONSCIÊNCIA CRÍTICA DA REALIDADE:

“Essa minha decisão de viver essa experiência na Amazônia é fruto do convívio com a realidade dos cárceres e a realidade social em sua forma mais cruel, o lado B de nosso País: o País dos esquecidos, dos humilhados. Pude estar em contato com a miséria da miséria, a injustiça, a segregação social e racial, a dor, o esquecimento. Ter visto de perto situações desconhecidas pela maioria das pessoas, ter conhecido um País que ainda maltrata seus cidadãos, tudo isso me despertou pra necessidade de luta, de trabalho para a profunda transformação dessa realidade”.

Faz uma longa e lúcida análise da realidade, falando da injusta distribuição das riquezas no País:

“Somos um País extremamente desigual na distribuição de renda. Somos top 10 no ranking de desigualdade. Num país com 200 milhões de habitantes, os 10% mais ricos detêm 50% da riqueza. Os 10% mais pobres, apenas 1% dessa riqueza. Os moradores de favelas pagam proporcionalmente mais impostos que os ricos. 4 milhões de famílias no Brasil precisam bons benefícios de uma reforma agrária …”.

SUA MOTIVAÇÃO. Não dá para ficarmos tranquilos diante de tanta injustiça. Porque preferimos a anestesia à luta? Porque não deixemos de lado um pouco nosso conforto para pensarmos e agirmos por uma sociedade melhor? Viajo para a Amazônia para colaborar, como cidadão e advogado, com as comunidades ribeirinhas, os índios …

O MEIO AMBIENTE. A natureza cada vez mostra com mais força seu poder e sua revolta contra o que fazemos com ela. Utilizamo-la com interesse econômico e sem preocupação com os demais seres que nela vivem. Não nos preocupamos com o amanhã. E ela não está feliz com isso. … Infelizmente os efeitos climáticos atingem de forma pior os mais pobres, os que moram em áreas de risco, nas beiras dos rios. Insistimos em desmatar nossas florestas … Faz sentido tudo isso? Do que adianta exercitarmos uma consciência ecológica se não questionamos nosso próprio anseio consumista que desgasta a capacidade da natureza e acelera a degradação do meio ambiente?

SEU COMPROMISSO:

“Devemos exigir de nós sacrifícios pelo bem da sobrevivência da natureza e nossa também … É preciso abdicar desse modelo. Sinto nessa minha escolha um pouco de negação, ainda que temporária, do modelo civilizatório ocidental consumista e destrutivo em que vivemos – e, pior, que achamos bom. Desejo buscar na natureza, com os índios, valores humanos que se sobreponham às ilusões da civilização”.

“Penso que, diante de toda a realidade miserável que pude ver, não posso ficar inerte, tocando minha vida como se a vida do outro nada tivesse a ver com a minha. Sinto-me na obrigação de colaborar com nosso povo”.

O APELO:

“Não é preciso ir até a Amazônia para mudar essa realidade social brasileira. A cidade de São Paulo está cheia de problemas a serem resolvidos, e todos vocês podem colaborar para mudar essa situação. Visitem a Favela do Moinho, o Jardim Pantanal, uma unidade prisional. Certamente lá existem muitos problemas e as pessoas precisam de ajuda!”

O SONHO, A MÍSTICA – LIVRE PARA VIVER E SERVIR – “CORAGEM DE LUTAR E CORAGEM DE AMAR” (Paulo Freire).

“Mas, nem só de lutas vive o homem. Quero viver, escrever uma gostosa poesia de minha vida. Poder respirar um ar puro, contemplar a mata e os animais, estar em contato com culturas diferentes, jogar mais futebol, estar no paraíso natural. Como diz a poesia do sambista Candeia, cantada na voz de Cartola: “deixe-me ir, preciso andar, vou por aí a procurar, sorrir pra não chorar. Quero assistir ao sol nascer, ver as águas do rio correr, ouvir os pássaros cantar, eu quero nascer, quero viver”.

Tudo isso Pedro realizou … na liberdade do seu ser … no sonho de partir em missão … na sua breve estadia em longínquas terras da Amazônia, na entrega entusiasta e definitiva de sua vida. Agora, mais que nunca, ele vive e está tão perto de nós, fala ao fundo do nosso coração; sua mensagem é eloqüente – a voz de um verdadeiro missionário, discípulo de Jesus Cristo. Fala da vida, fala de Deus … anuncia o amor, a justiça, a paz. Paz que ele encontrou e testemunhou, com sua jovial teimosia, seu olhar penetrante, sorriso bondoso.

Trago à lembrança as vezes em que nos encontramos e, agora, – que fazer quando não se pode mais tê-lo fisicamente presente? – contemplo-o numa singela foto (no Informativo CNBB Sul I, Junho de 2010: http://www.cnbbsul1.org.br) em que uma jovem índia lhe pinta o rosto, colorindo de pureza indígena sua feição nipo-brasileira. Olho e agradeço: obrigado por você existir, por sua amizade, seu entusiasmo e determinação. Você está com Deus, amigo e missionário Pedro; e já escutou Jesus chamá-lo de “servo bom e fiel” (Mt 25,21.23) e dizer “recebe em herança o Reino que meu Pai preparou” (cf. Mt 25,34).

Que nossa saudade se transforme fé; em gratidão a Deus, a seus queridos pais, a seus irmãos, a você, querido Pedro … Que sua ausência seja preenchida de amor, solidariedade e compromisso com as causas que você abraçou. E como abraçou! Amém.

Dom Pedro Luiz Stringhini
Aparecida, 29 de junho de 2010.

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